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A
INVESTIGAÇÃO COMO PROGRAMA NARRATIVO NO FILME "O
INFORMANTE"
CAMILA
SACCOMORI
UNIVERSIDADE
DO VALE DO RIO DOS SINOS
CENTRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO
A INVESTIGAÇÃO COMO PROGRAMA NARRATIVO NO FILME "O
INFORMANTE" - UM ESTUDO DA LINGUAGEM VERBAL
AUTORA: CAMILA SACCOMORI
MONOGRAFIA DE CONCLUSÃO DO CURSO DE JORNALISMO
ORIENTADORA: DINORÁ FRAGA
SÃO LEOPOLDO, 22 DE JUNHO DE 2001
"O jornalismo é uma paixão insaciável
que só se pode digerir e humanizar diante da confrontação
descarnada com a realidade."
Gabriel García Márquez
RESUMO
Esta monografia tem como objetivo realizar uma análise semiótica
do processo de investigação no filme "O Informante",
a partir da teoria da narratividade do semiólogo francês
Algirdas-Julien Greimas, através de um estudo da linguagem
verbal do texto.
ABSTRACT
This work has as objective accomplishes an analysis semiotics of
the investigation process shown in the movie "The Insider",
starting from the theory of narrativity created by the French semioticist
Algirdas-Julien Greimas, through a study of the text's verbal language.
Dedico este
trabalho ao meu avô materno, Manoel Pedro Severo da Silva
(in memoriam), pelo exemplo de vida, coragem e perseverança.
AGRADECIMENTOS
Acredito que agradecer é uma das coisas mais belas que alguém
pode fazer, pois é admitir que houve um momento em que se
precisou de alguém. É reconhecer que o homem jamais
poderá lograr para si o dom de ser auto-suficiente.
Agradeço, primeiramente, à minha mãe, cujo
amor sem proporções me dá a certeza de que
estará sempre ao meu lado. Sem ela, este trabalho não
teria sido possível.
Agradeço aos amigos, que abriram mão de nossa convivência
quando o dever e o estudo tomaram boa parte do meu tempo.
Agradeço, por fim, à imensa paciência e sabedoria
de minha orientadora pelas horas de debate e conselhos.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO 10
2 SEMIÓTICA GREIMASIANA 13
2.1 Estrutura elementar 15
2.2 Estrutura narrativa 16
2.3 Estrutura discursiva 18
3 INVESTIGAÇÃO JORNALÍSTICA 19
3.1 Âmbito do jornalismo investigativo 21
3.2 Características do jornalismo investigativo 21
3.3 O processo de investigação jornalística
22
3.4 O jornalista investigativo 23
3.4.1 Características do jornalista investigativo 24
3.5 O processo de busca de fontes 27
4 O PROCESSO DE INVESTIGAÇÃO NO FILME "O INFORMANTE"
29
4.1 O filme "O Informante" 30
4.2 Percurso gerativo de sentido em "O Informante" 32
4.2.1 Programas narrativos 33
5 CONCLUSÃO 58
BIBLIOGRAFIA..........................................................................................................60
FICHA TÉCNICA - THE INSIDER, EUA, 1999 63
ELENCO COMPLETO E PERSONAGENS 64
1 INTRODUÇÃO
O cinema, antes de ser um produto de entretenimento, se apresenta
- ainda que muitos estudiosos e teóricos refutem esta idéia
- como arte e, assim, um produto da cultura. No que se refere à
significação da realidade no cinema, este vem propondo,
ao longo de sua história, um sem-número de significações
referentes às mais variadas atividades profissionais.
Certamente o cinema não é o único produtor
de significados sobre a realidade. Outras práticas distintas
(como a fotografia, a pintura, o teatro, etc) possuem o mesmo poder
de criar imagens e conceitos mentais integrais e duradouros a respeito
dos profissionais a que elas se dedicam a representar.
A capacidade do cinema, porém, de criar figuras com existência
autônoma, registrá-las e reproduzi-las continuamente
confere a esta forma de representação um poder especial:
o de gerar e manter acesas suas construções simbólicas,
mesmo aquelas que não possuem mais relação
com as figuras da prática cotidiana.
Quanto à representação do jornalismo e do jornalista
no cinema, esta constatação não é diferente,
exceto pela posição privilegiada que esta categoria
parece desfrutar. Por ser a exposição o requisito
primeiro do exercício do jornalismo, mais que uma contingência,
conforme Stella Senra , a transformação em imagem
desse profissional parece constituir uma etapa ou um estágio
da sua atividade.
Meu interesse pela significação cinematográfica
do jornalista, portanto, veio da percepção de que
grande parte dos filmes dedicados à imprensa eram centrados
na figura do jornalista. Entre alguns dos títulos que pude
assistir estão "A Montanha dos Sete Abutres", "Depois
daquele beijo", "Max Headroom: vinte minutos no futuro"
e "Sob fogo cerrado", além de "King Kong"
- apesar da curta aparição dos jornalistas e da concentração
destes no universo do fazer cinematográfico. Os raros filmes
de cunho jornalístico baseados em fatos reais, são
os que me atraem particularmente, como é o caso de "Todos
os Homens do Presidente", "Cidadão Kane" e
"O Informante", que é o objeto de estudo desta
monografia.
Não caberia fazer aqui, porém, um estudo sobre o papel
dos jornalistas nestes filmes, visto que a maioria deles já
foi estudada em inúmeros livros, dissertações
e teses, ao menos no âmbito acadêmico norte-americano.
O objetivo desta monografia, em princípio, era o de desenvolver
um estudo sobre a identidade do jornalista investigativo no filme
"O Informante". Após os primeiros contatos com
o tema, tornou-se inviável abordar este aspecto, por limites
de tempo e espaço, visto que o filme possui 155 minutos de
duração e o estudo da identidade exigiria muito mais
que pesquisa empírica e bibliográfica.
Abandonando assim a questão da teoria das identidades, ficou
claro que meu estudo deveria abordar o processo de investigação
realizado pelo jornalista no filme, ao invés da figura do
mesmo na história. Consciente de que o filme, apesar de relatar
uma história real, não representa necessariamente
a verdade, considerei realizar uma abordagem epistemológica
da realidade apresentada no filme, usando como base a teoria semiótica
de Algirdas-Julien Greimas, semiólogo francês cuja
teoria da narratividade está explicada no capítulo
2.
Escolhi a abordagem semiótica do cinema por tratar-se de
uma ciência que tem como proposta o desenvolvimento de estudos
sobre o processo de significação do discurso. Esta
monografia tem como objetivo, portanto, refletir sobre a investigação
jornalística no filme "O Informante" através
da perspectiva semiótica. Por delimitação de
tempo e espaço, escolhi realizar um estudo da linguagem verbal
segundo os conceitos de Greimas, tomando por base a investigação
propriamente dita, sem fixar-me na representação do
jornalista no cinema, mas não esquecendo que este ainda era
o fio condutor do processo analisado. As características
da investigação e do jornalista investigativo como
o conhecemos estão explicitadas no capítulo 3, segundo
as teorias da comunicação estudadas.
O filme "O Informante" sob a perspectiva da teoria greimasiana
é tema do quarto capítulo. A escolha deste filme em
particular deu-se, além dos motivos acima descritos, por
tratar-se de filme recente e ainda não estudado cientificamente.
Acredito que "O Informante" é um filme que apresenta,
ainda que de forma romanceada, uma história real dos tempos
modernos, onde cada vez mais a ética é confrontada
com os interesses da indústria e do governo. Baseado num
artigo da jornalista Marie Brenner titulado "O homem que sabia
demais", publicado na revista Vanity Fair em 1996, o filme
relata os bastidores do episódio ocorrido na emissora americana
CBS, quando interesses comerciais e políticos chocaram-se
com os jornalísticos, mostrando quão difícil
pode ser a revelação e divulgação de
um segredo.
2 SEMIÓTICA GREIMASIANA
Para Algirdas-Julien Greimas, o estudo da semiótica se desenvolve
com o objetivo de buscar o sentido dos textos. Com a influência
de Vladimir Propp, Louis Trolle Hjelmslev, Claude Lévi-Strauss
e outros, Greimas desenvolveu um método que permite analisar
a organização dos discursos, no plano de conteúdo,
a partir do conceito de narratividade.
Estes estudos levaram Greimas a identificar a existência de
formas universais de organização da narrativa no texto.
Tais formas se repetem nos mais diversos textos e são essas
estruturas que sustentam a construção dos sentidos
e da significação dos textos. A existência dessa
estrutura narrativa se manifesta em qualquer tipo de discurso.
"O agenciamento proppiano sugere-nos a possibilidade de ler
qualquer discurso narrativo como uma busca do sentido, da significação
a ser atribuída à ação humana: o esquema
narrativo aparece, portanto, como a articulação organizada
da atividade humana que o erige em significação. "
Os programas narrativos (abreviados por PN neste trabalho) são
as unidades narrativas que relevam de uma sintaxe actancial aplicável,
portanto, a todas as espécies de discurso. Os PNs dão
conta da organização dos diferentes segmentos dos
esquemas narrativos.
Para Greimas, a narratividade se contrói em três níveis
de complexidade diversas: estrutura elementar ou fundamental, estrutura
narrativa e estrutura discursiva. O termo narrativa é utilizado
por Greimas para designar o discurso narrativo de caráter
figurativo (que comporta personagens que realizam ações).
Já a narratividade é uma dada propriedade que caracteriza
certos tipos de discursos e é considerada como o princípio
organizados de qualquer discurso.
Como toda semiótica pode ser tratada ou como sistema ou como
processo, as estruturas narrativas podem ser definidas com constitutivas
do nível profundo do processo semiótico. Da relação
entre este nível e dos outros dois depende o sentido dos
textos.
A expressão percurso gerativo designa a disposição
de seus componentes, uns com relação aos outros. Os
componentes que intervêm nesse processo se articulam uns com
os outros de acordo com um "percurso"que vai do mais simples
ao mais complexo, do mais abstrato ao mais concreto. Veremos nos
próximos ítens como opera essa transição.
A primeira etapa do percurso gerativo do sentido, a mais simples
e abstrata, recebe o nome de estrutura elementar ou fundamental,
e nela surge a significação como uma oposição
semântica mínima. No segundo patamar, denominado estrutura
narrativa, organiza-se a narrativa, do ponto de vista de um sujeito.
O terceiro e último nível é o do discurso ou
da estrutura discursiva, em que a narrativa é assumida pelo
sujeito da enunciação.
2.1 Estrutura elementar
A estrutura elementar ou fundamental se caracteriza por ser a estrutura
mais profunda e abstrata. Desempenha o papel de descrição,
permitindo representar os fatos semióticos anteriormente
à manifestação. Greimas identifica os semas
na base desta estrutura. Um sema é a unidade mínima
da significação. Os semas são elementos constituivos
dos sememas - reconhecíveis no interior do signo mínimo.
Todo sema tem outro como referência, o que possibilita a identificação
das diferenças.
Greimas, para esclarecer este aspecto, menciona que a relação
estabelecida entre dois semas é de natureza antonímica,
revezando-se entre a conjunção e a disjunção
ao mesmo tempo, pois unem-se por uma relação de oposição.
Desta forma, no nível das estruturas fundamentais, é
preciso determinar a oposição ou as oposições
semânticas a partir das quais se constrói o sentido
do texto. As categorias fundamentais são determinadas como
positivas ou eufóricas e negativas ou disfóricas.
Essa relação pode ser representada no quadrado semiótico,
cuja proposta é dar conta da ordem dos universos semânticos
em seu conjunto. O quadrado semiótico é considerado
por Greimas como ponto de partida do processo gerativo de sentido.
Trata-se de uma representação visual da articulação
lógica de uma categoria semântica. Entretanto, apesar
da função do quadrado de tentar abranger todas as
textualizações, tal elemento não será
utilizado neste trabalho, pois o objetivo do estudo é pensar
alternativas ao modelo fechado de interpretação da
narrativa. Tal proposta torna o quadrado semiótico dispensável.
2.2 Estrutura narrativa
A estrutura narrativa é a etapa mais superficial do percurso
gerativo de sentido. Essa organização é dada
sobre os sememas e é chamada por Greimas de modelo actancial.
A organização actancial é formada por actantes
que, conforme Greimas, são concebidos como aqueles que realizam
ou sofrem o ato, independentemente de qualquer outra realização.
Ou ainda, conforme L. Tesnière, a quem se deve o termo,
"Actantes são os seres ou coisas que, a um título
qualquer e de um modo qualquer, ainda a título de meros figurantes
e da maneira mais passiva possível, participam do processo."
Os actantes são os seres do discurso e todo discurso de desenvolve
em cima de sujeitos e objetos. A relação entre estes
dois elementos (sujeito e objeto) é de disjunção
ou conjunção. Essa confrontação ocorre
porque existe um objeto a ser disputado. A partir do momento em
que este objeto é desejado pelas partes envolvidas, o mesmo
passa a ter um determinado valor, passando a ser um objeto de valor
para o sujeito.
O sujeito e o objeto, porém, não são os únicos
a fazer parte da estrutura narrativa. Há ainda o destinador
e o destinatário, que formam o segundo par de actantes. Estes
também estão interligados pelo objeto de desejo. Destinador
é aquele actante que faz fazer, diferente do sujeito que
tem a ação de fazer ser. Diferentes relações
se estabelecem: entre o destinador e o destinatário, uma
relação de implicação. Entre o sujeito
e o objeto, uma relação de projeção.
O destinador e o destinatário são actantes estáveis
e permanentes da narração, independentemente dos papéis
de actantes da comunicação suscetíveis de assumir.
O processo de manipulação só é possível
quando o destinador e o destinatário partilham dos mesmos
valores, mas nem por isso se estabelece uma relação
de igualdade, mas de superior para inferior, submetendo o destinatário
por meio do poder ou do saber.
Para que ocorra a manipulação, o destinador joga com
os recursos persuasivos. Diana Luz de Barros classifica quatro formas
de manipulação: a sedução, a provocação,
a intimidação e a tentação.
"O percurso do sujeito representa, sintaticamente, a aquisição,
pelo sujeito, da competência necessária à ação
e a execução, por ele, dessa performance. Há
diferentes espécies de programas de competência e performance
e maneiras diversas de se encadearem os programas, havendo, por
conseguinte, percursos do sujeito diferenciados em cada texto."
O manipulador pode exercer seu fazer persuasivo apoiando-se na modalidade
do poder: na dimensão pragmática, ele proporá
então ao manipulado objetos positivos (valores culturais)
ou negativos (ameaças). Em outros casos, ele persuadirá
o destinatário graças ao saber.
O manipulador age sobre o outro para fazer-fazer algo de seu interesse.
Para isso, ele exerce sua persuasão com intuito de que o
sujeito se convença do caráter de verdade de valores
que estabelece e que se consolidam na forma de um contrato.
A conclusão da manipulação se dá pela
verificação do cumprimento do contrato pelo destinador-julgador.
Nessa operação, o julgador confere a veridicção
dos resultados do fazer do sujeito, avaliando se é verdadeiro
(que parece e é), falso (que não parece e não
é), mentiroso (que parece, mas não é) ou secretos
(que é e não parece).
2.3 Estrutura
discursiva
A estrutura discursiva está identificada ao nível
mais superficial. Pode-se dizer, entretanto, que esta estrutura
está no limiar da relação de significação
(expressão e conteúdo). Deve ser examinada do ponto
de vista das relações que se instauram entre a instância
da enunciação, responsável pela produção
e pela comunicação do discurso, e o texto-enunciado.
É nesse nível onde aparecem os três subcomponentes
da discursivização: a actorialização,
a temporalização e a espacialização,
os quais, enquanto procedimentos, permitem investir os actantes
no discurso e produzem um quadro ao mesmo tempo temporal e espacial,
onde se inscrevem os programas narrativos provenientes das estruturas
semióticas ou narrativas.
Estes procedimentos de discursivização estão
ligados diretamente à instância da enunciação.
A estrutura discursiva, entretanto, por vezes é confundida
com a textualização, conforme Greimas. Isso porque
um dos procedimentos da textualização é a linearização,
isto é, a desconstrução do discurso. Desta
desconstrução resulta uma nova segmentação
textual, que tem por efeito produzir um discurso linear.
Voltando à instância da enunciação, que
serve de lugar à geração do discurso, a análise
do discurso neste trabalho pretende reconhecer seqüências
discursivas consideradas como sucessões de frases-enunciados,
o que compõe o enunciado-discurso que vem a formar uma totalidade.
3 INVESTIGAÇÃO
JORNALÍSTICA
Tentar definir o que é o jornalismo investigativo não
deixa de ser controverso tanto para os profissionais que o praticam
como para alguns autores que defendem pontos de vista contraditórios
na hora de analisar esta atividade jornalística. As divergências
surgem no momento de caracterizar o jornalismo investigativo como
uma especialização jornalística ou simplesmente
como jornalismo bem realizado, perfeitamente contrastado.
Alguns jornalistas, escritores e estudiosos dos temas de comunicação
afirmam que qualquer trabalho jornalístico deveria ser ao
mesmo tempo investigativo. Para estes autores, a essência
do jornalismo bem realizado se sustenta na base da investigação
e confirmação permanente dos dados com os quais o
jornalista elabora sua informação.
De acordo com estudos realizados pelo Missouri Group em 1980, o
jornalismo investigativo se define como um tipo de informação
que é mais detalhado, mais analítico e exige mais
tempo que a maioria da cobertura jornalística cotidiana.
Ainda segundo este estudo, o jornalismo de investigação
tem por objetivo alcançar a informação oculta,
e seu temário pode variar amplamente com o âmbito da
atividade humana.
Petra Maria Secanella também insiste nesse papel de oposição
e enfrentamento entre investigador e investigado, e destaca como
uma das características mais importantes do jornalismo investigativo.
Segundo a autora, a essência dessa modalidade jornalística
deve ser buscada no enfrentamento, oposição ou contraste
de papéis entre políticos e jornalistas.
"O jornalismo de investigação tem por objetivo
propor reformas, expor injustiças, detectar que instituições
não cumprem com seu trabalho, dar informação
aos eleitores sobre os políticos e suas intenções
de atuação, reconstruir acontecimentos importantes,
etc."
O escritor colombiano Gabriel García Márquez se referia,
no jornal El País, em 1996. à importância da
investigação no jornalismo diário quando afirma
que a formação jornalística universitária
deve sustentar-se em três pilares fundamentais, um dos quais
é a "certeza de que a investigação não
é uma especialidade do ofício, e sim que todo o jornalismo
deve ser investigativo por definição."
Já para o jornalista espanhol Ricardo Arqués, não
se pode equiparar o jornalismo bem feito com o jornalismo de investigação.
"O jornalismo deveria sempre ser bem feito, mas na prática
não é assim. O que sucede é que, ante essa
carência de jornalismo rigoroso e bem feito tende-se a identificar
o jornalismo bem feito com o jornalismo investigativo. "
Nesta pesquisa, portanto, o jornalismo investigativo está
sendo considerado, portanto, uma especialização dentro
do jornalismo.
3.1 Âmbito
do jornalismo investigativo
O jornalismo investigativo tem sua própria identidade a partir
do momento em que propõe-se a abordar assuntos que não
fazem parte da pauta diária de um veículo de comunicação.
Difere da atividade jornalística diária por alguns
fatores básicos: a inexistência da pressão do
dia-a-dia, maior profundidade na análise e mais tempo de
produção.
Com a intenção de delimitar o marco que diferencia
a prática cotidiana do jornalismo da investigação
jornalística, cabe ressaltar, mesmo que em linhas gerais,
as características principais desta especialidade.
3.2 Características
do jornalismo investigativo
A investigação jornalística se exercita sobre
um campo específico: aquele que os outros querem manter oculto,
e não sobre espaços sem limites aberto à investigação
sociológica ou histórica. Para tanto, o assunto oculto
que se investiga é buscado sempre em campo alheio aos interesses
e objetivos do veículo de comunicação. A revelação
dos resultados de uma investigação jornalística
se configura e se decide como comportamente não-rotineiro
do veículo, em função de uma estratégia
específica com previsão de efeitos que reforcem seus
objetivos.
Desta forma, descobrir a verdade oculta e denunciar feitos ou situações
ilegais que vão contra o interesse público geral acaba
tornando-se a principal característica do jornalismo investigativo.
3.3 O processo
de investigação jornalística
A dinâmica de um processo de investigação jornalística
é o caminho que conduz desde a recepção de
um rumor até a publicação de um feito comprovado.
Obter indícios suficientes para iniciar uma investigação
representa apenas o ponto de partida.
Rumor ou confidência ® Definição do campo
de investigação ® Busca de fontes
Após a definição do campo de investigação
e da busca por novas fontes ou conhecidos informantes, cabe ao jornalista
investigativo definir o método de trabalho, distribuir as
tarefas a serem realizadas (no caso de trabalho em equipe) e consultar
arquivos especializados. É a parte do processo que determina
o quê e como serão dados os primeiros passos.
Busca em arquivos ® Fontes especializadas ® Primeiras entrevistas
com fontes
Depois de obtidos os resultados destes três passos fundamentais,
o jornalista investigativo parte para a comprovação
dos dados. Normalmente, faz-se uma avaliação final
da investigação antes de torná-la pública.
Nesta etapa final do processo, é importante observar também
os possíveis efeitos que podem ser produzidos quando da publicação/veiculação
do material investigado.
O jornalista espanhol Ricardo Arqués também destaca
outro elemento que considera importante durante todo processo de
investigação jornalística: a intuição.
"Um aspecto essencial é a intuição, mas
é essa mesma intuição que todo mundo tem e,
por conseqüência, todos os jornalistas. É uma
espécie de olfato jornalístico e sentido especial
que te alerta e te diz que, se caminhas por aí, podes chegar
a algo importante."
3.4 O jornalista
investigativo
Assuntos como Watergate criaram uma aura de mistério, situada
entre o místico e o mítico, ao redor dos jornalistas
que se dedicam habitualmente à investigação
de assuntos além da esfera reservada à cotidiana aquisição
de informações.
Estes profissionais por vezes aparecem como uma espécie de
"bruxos" capazes de dominar mágicas que conseguem
passar as realidades mais zelosamente guardadas para o teclado de
seus computadores e apresentá-las na primeira página
do jornal. Aparentam ser profissionais possuidores de técnicas
misteriosas capazes de fazê-los ter acesso aos lugares mais
vigiados e permiti-los possuir um conjunto de fontes abundantes
de informação.
Embora o jornalista investigativo seja realmente um expert em encontrar
as pistas que conduzem a informações que pessoas ou
entidades desejam manter ocultas, a profissão cobra seu preço.
Trata-se de uma atividade de grande dificuldade - e em certas ocasiões,
perigosa - que obriga o profissional a desenvolver um trabalho de
grande rigor científico.
Entre o mito e a desqualificação, porém, existe
sim um ingrediente secreto: o de realizar um esforço superior
ao normal. O jornalista investigativo é, antes de tudo, um
profissional que trabalha muitíssimas horas a mais que seus
colegas e que está submetido a um esforço e a um estresse
continuado. Segundo o espanhol Pepe Rodríguez,
"Entre o jornalista investigativo e seus freqüentes resultados
brilhantes não há mais que dois elementos diferenciadores:
muito trabalho e método apropriado."
3.4.1 Características
do jornalista investigativo
Um jornalista que deseje dedicar-se à investigação
jornalística deve cumprir uma série de características
pessoais e estruturais determinadas. Se requer, entre outras qualidades,
bons dotes de observação, retentiva, memória
visual, capacidade de previsão, planejamento e improvisação
e capacidade de assumir riscos. Veremos estes e outros pré-requisitos
a seguir:
a) Curiosidade
O jornalista investigativo deve ter uma grande curiosidade para
observar a existência de indícios de irregularidades
que podem ser investigados. Deve ser extremamente sensível
para buscar feitos ocultos, prová-los e explicá-los
com suas causas e conseqüências. Deve perguntar-se sempre
o como e o porquê das coisas que investiga.
b) Espírito crítico
O jornalista investigativo é um observador social que busca
ajudar o público a conhecer a realidade das coisas, para
que participe de forma ativa em decisões importantes que
pessoas ou entidades adotam abusivamente e que afetam suas vidas.
c) Precisão e exatidão
O jornalista deve ter uma sensibilidade para captar os detalhes
e expô-los com absoluto rigor. Uma boa investigação
se sustenta sobre a base do profundo conhecimento do assunto investigado,
de todos os detalhes que darão crédito ao material
publicado.
d) Astúcia e tenacidade
Astúcia para tratar com fontes de informação
que nem sempre estão dispostas a compartilhar dos dados que
conhecem. Astúcia também para ganhar a confiança
da fonte e facilitar a comunicação. Tenacidade para
levar até o final um trabalho de investigação
recheado de problemas e dificuldades.
e) Atrevimento
O jornalista investigativo não trabalha com fontes oficiais,
portanto deve ser atrevido para avançar além das verdades
oficialescas. Atrevimento para buscar a verdade oculta através
de suas fontes, ainda que tal atitude signifique opor-se às
versões oficiais, aos organismos públicos e autoridades.
f) Prudência
Deve ser especialmente prudente o jornalista investigativo e não
dar por boa nenhuma informação, por mais veraz que
pareça, sem ter sido suficientemente revisada e contrastada.
g) Iniciativa individual
O jornalista investigativo trabalha por sua própria conta
e risco. Busca os temas, analisa e prepara, estuda as possibilidades
da investigação, procura por fontes adequadas a fornecer
a informação pretendida e persevera no trabalho até
conseguir as provas que necessita. Em algumas ocasiões, o
trabalho é desenvolvido em equipe, mas a iniciativa de cada
pessoa do grupo é também característica imprescindível
para o exercício desta especialidade.
h) Agressividade
Agressividade aqui entendida como a perseverança necessária
para extrair informações de uma fonte reticente. Trabalhar
com fontes também implica, em algumas ocasiões, pressioná-las
para que contem o que conhecem. Uma agressividade que parte da consciência
de que está desenvolvendo-se um trabalho que provavelmente
prejudicará a pessoa sobre a qual está se investigando.
i) Capacidade de organização e sistematização
São qualidades importantes num trabalho que se caracteriza
pelo manuseio de diversos dados díspares, obtido através
de várias e variadas fontes. Uma boa organização
dos dados não é só uma garantia a mais para
o resultado do trabalho e representa uma economia de horas e eforços
extras para encontrar as informações já recolhidas.
j) Interesse pela informação
O jornalista investigativo não se dedica expressamente às
informações da atualidade. Deve estar, entretanto,
perfeitamente informado dos temas que diariamente aparecem nos meios
de comunicação. Deve conhecer a atualidade imediata
para ler as entrelinhas e, assim, buscar temas de interesse para
as próximas investigações. Muitas matérias
investigativas têm origem na percepção crítica
da atualidade informativa.
k) Integridade
O jornalista investigativo deve ter sempre presente que o valor
de suas informações é lhe dado exclusivamente
pela capacidade que tem de provar os feitos que se dispõe
a denunciar. A integridade do profissional é verificada através
da neutralidade e imparcialidade deste. Precisa adotar uma atitude
neutra, isto é, renunciar a deixar-se levar por sua ideologia
e limitar-se a mostrar apenas os fatos que possa comprovar.
l) Discrição
Ser uma pessoa discreta é uma qualidade necessária
para o investigador, pois a discrição serve para resguardar
as informações já coletadas e evitar que alguém
envolvido na denúncia descubra e possa vir a colocar obstáculos
na investigação.
m) Credibilidade
A credibilidade só se consegue através de um rigoroso
trabalho do profissional, em quem o público sabe que pode
confiar. Quando da ocasião de erros, o jornalista que pretende
preservar a credibilidade trata de fazer as retificações
imediatamente.
Além de todas essas características, as possibilidades
de trabalho de um jornalista investigativo encontram-se condicionadas
ainda por uma diversidade de elementos complementários, entre
os quais se ressaltam os de conduta de trabalho, a disponibilidade
de meios técnicos e humanos, as características do
meio para o qual se trabalha, o tempo disponível, o objetivo
a investigar, a personalidade do jornalista e sua capacitação
técnica.
3.5 O processo
de busca de fontes
Encontrar fontes importantes e confiáveis é um dos
objetivos prioritários de todo jornalista. Poucas coisas
são tão desejadas como encontrar uma boa fonte que
facilite o trabalho investigativo. Sem uma, ou muitas, boas fontes,
a atividade jornalística de investigação está
condenada a morrer de sede noticiosa.
Para efeitos deste trabalho, fonte é definida como toda pessoa
que, de um modo voluntário e ativo, facilite algum tipo de
informação a um jornalista. Também pode ser
considerado fonte toda variedade de informação encontrada
na imprensa, em livros, arquivos, etc. No caso deste filme, o próprio
nome já adianta que trata-se da história de uma fonte.
"O Informante", como foi traduzido em português,
é a fonte exclusiva da investigação realizada.
Quanto à natureza das fontes de informação
jornalística, Pepe Rodríguez classifica os informantes
de "fontes pessoais". Dentro desta categoria, encontra-se
quatro blocos genéricos diferenciados em relação
à temporalidade, ao conteúdo informativo, à
estrutura de comunicação e à ética.
O conceito de temporalidade divide as fontes jornalísticas
em assíduas e ocasionais. O conteúdo informativo refere-se
à divisão entre fontos pontuais (específicas)
e gerais. A estrutura de comunicação que mediatiza
as relações entre o jornalista e a fonte diferencia
estas entre fontes públicas, privadas e confidenciais.
Cabe ainda destacar a classificação quanto à
ética, definido pelo conceito de voluntariedade na transmissão
da informação desde a fonte até o jornalista.
Desta forma, depara-se com fontes voluntárias e involuntárias.
Distingue-se, ainda, o informante do confidente, que varia conforme
o grau de confiança e credibilidade. O informante é
aquele que mantém uma relação ocasional com
o jornalista, em muitos casos limitada a chamadas telefônicas
ou um ou vários encontros pessoais. Já com o confidente
se estabelece uma relação habitual, produto de um
trato pessoal mais ou menos prolongado.
4 O PROCESSO
DE INVESTIGAÇÃO NO FILME "O INFORMANTE"
Neste capítulo, a proposta é realizar uma análise
semiótica do jornalismo investigativo no filme "O Informante".
Por limitações de tempo e espaço, tornou-se
necessário fazer uma delimitação do corpus
da monografia.
Entende-se por corpus um conjunto finito de enunciados, constituído
com vistas à análise que, uma vez efetuada, pode ser
tida como capaz de explicá-lo de maneira exaustiva e adequada.
Para Greimas, um corpus, para ser bem constituído, deve satisfazer
a três condições: ser representativo, exaustivo
e homogêneo .
Neste trabalho, o objeto de estudo semiótico será
a linguagem verbal no filme "O Informante". A análise
compreenderá a identificação das estruturas
elementar ou fundamental, narrativa e discursiva do corpus, conforme
exposto no capítulo 2 e tomando por jornalismo investigativo
os conceitos definidos no capítulo 3.
4.1 O filme
"O Informante"
Desde "Todos os Homens do Presidente", de Alan J. Pakula,
sobre o trabalho de apuração do escândalo de
Watergate - reportagem que derrubou o presidente Richard Nixon -
pelos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein do The Washington
Post, não se via um filme sobre jornalismo inspirado num
acontecimento verídico incontestável.
O Informante (The Insider, 1999) relata uma história baseada
em fatos reais sobre a vida de Jeffrey Wigand (interpretado por
Russell Crowe), um doutor em endrocrinologia e bioquímica,
contratado em 1989 pela companhia de cigarros Brown & Williamson,
subsidiária da British American Tobacco, com sede em Kentucky,
para chefiar o departamento de Pesquisa e Desenvolvimento da empresa.
Após três anos de trabalho, o cientista foi promovido
a vice-presidente.
Em 1993, Wigand foi demitido da B&W, já que se recusara
a cooperar no desenvolvimento da química da amônia
para aumentar a eficácia da nicotina nos cigarros fabricados
pela companhia, além da manipulação de outras
substâncias cancerígenas. Após seu desligamento,
o cientista recebeu um alerta do chefe da companhia, Thomas Sandefur
(representado pelo ator inglês Michael Gambon), para que honrasse
um rigoroso acordo de sigilo da empresa, evitando assim um pesado
processo em suas costas e a perda dos benifícios do seguro
médico para sua família.
O jornalista Lowell Bergman (vivido pelo ator Al Pacino), investigador
e produtor do programa "60 Minutos", procurou Wigand para
pedir consultoria em outro assunto relacionado à indústria
do tabaco. Ao descobrir a bomba que o cientista esconde, o jornalista
tratou de fazer com que Wigand denunciasse as falcatruas que este
conhecia de dentro (eis o porquê do nome original do filme,
"The Insider").
Após muita indecisão, pesando os prós e os
contras que sua atitude poderia causar, em 1994 o cientista finalmente
decidiu declarar o que sabia, colocando em jogo sua vida pessoal
e profissional. Ansioso, pálido, sedentário e beberrão,
o cientista Jeffrey Wigand tornou-se a principal testemunha numa
ação judicial de US$ 246 bilhões iniciada pelo
Estado do Mississipi e mais 49 estados contra a indústria
do tabaco.
A equipe do "60 Minutos", comandado por Mike Wallace,
gravou então a entrevista de conteúdo devastador e
organizou uma equipe de advogados para sua defesa. Apesar da proteção
jurídica, Wigand acabou sendo processado e virou alvo de
uma campanha nacional difamatória. Divorciado da esposa,
que não aceitou sua decisão de divulgar os fatos,
correu também o risco de ir para a cadeia por desrespeitar
uma liminar judicial do Estado de Kentucky que o impedia de depôr
no Mississipi.
Após ter se arriscado tanto e impossibilitado de prestar
seu testemunho ao povo americano, Wingand enfrentou circunstâncias
extraordinárias. Bergman tentava vencer a campanha difamatória
e forçar a CBS a apresentar a entrevista, arriscando seua
reputação e seu emprego. Entretanto, antes que o programa
mais revelador dos últimos anos fosse transmitido, o jornalista
acabou sendo derrotado por uma decisão corporativa da CBS,
que descartou a veiculação da entrevista por motivos
políticos e econômicos. O que havia sido feito em nome
de uma revelação contra um grande sistema foi abafado
por essa mesma força, mostrando o quão difícil
é mudar algo dentro de campos de poder.
4.2 Percurso gerativo de sentido em "O Informante"
O percurso narrativo da investigação no filme "O
Informante" foi dividido em 10 PNs (abreviatura para Programa
Narrativo), sendo que o último PN consiste na entrevista
final que encerra o trabalho de investigação construído
na história.
Os PNs foram numerados em ordem cronológica, seguindo fielmente
à tradução em português. Cada PN recebeu
um título para identificação do conteúdo
trabalhado. As explicações necessárias para
o entendimento da cena estão entre parênteses e em
itálico. Os adjuvantes dos programas narrativos estão
em caixa alta e identificados entre parênteses na primeira
menção, de acordo com sua relação com
os personagens principais.
A análise do texto realizada a seguir considera cada nível
separadamente, para dar uma visão geral de como está
concebido o percurso gerativo de sentido (seqüência de
programas narrativos relacionados por pressuposição)
e suas etapas, através da teoria semiótica de Greimas.
No nível das estruturas fundamentais, determina-se a oposição
semântica a partir da qual se constrói o sentido do
texto. No caso da investigação no filme "O Informante",
a história envolvendo a fonte está baseada na categoria
semântica fundamental divulgação vs. omissão.
Esta categoria está diretamente relacionada ao objeto de
valor (Ov) do texto, que é a informação. As
categorias fundamentais são classificadas por Greimas como
positivas ou eufóricas e negativas ou disfóricas.
No texto da investigação, a divulgação
é eufórica e a omissão, disfórica.
4.2.1 Programas narrativos
O programa narrativo, ou sintagma elementar da sintaxe narrativa,
define-se como um enunciado do fazer que rege um enunciado de estado.
Integra, portanto, estados e transformações. O estudo
a seguir contempla estes elementos da narrativa, identificando as
transformações operadas pelos sujeitos em relação
ao objeto de valor que é a informação durante
todo o percurso narrativo.
Por existirem diferentes tipos de programas narrativos, segundo
diversos critérios, os PNs que serão estudados neste
trabalho estarão divididos quanto à natureza da função
e/ou valor investido no objeto.
Os programas narrativos quanto à natureza da função
estão assim explicitados:
PN = F [ S¹ ® S² W Ov ]
Sendo que F representa a função, ® refere-se à
transformação, S¹ é sujeito do fazer,
S² é sujeito de estado, W simboliza conjunção
e Ov representa o objeto de valor.
Quanto ao valor investido no objeto, estes podem ser modais, como
o dever, o querer, o poder e o saber, que modalizam ou modificam
a relação do sujeito com os valores e os fazeres,
ou descritivos.
4.2.1.1 PN 1
Recebimento dos documentos.
(Após
receber uma caixa, o jornalista Lowell Bergman abre e encontra documentos)
LOWELL BERGMAN
(jornalista)
Propensão de ignição?
Entende alguma coisa disso?
SHARON TILLER
(mulher do jornalista Lowell Bergman)
Não. Parece uma tabela de temperaturas. De quem é?
LOWEEL BERGMAN
É anônimo. Iniciais PM. Deve ser da Phillip Morris.
SHARON TILLER
Vou tomar um banho.
(LOWEEL BERGMAN
bipa DOUG OLIVER)
DOUG OLIVER
(agente do FDA - Federal Drug Administration)
Oi, aqui é Doug Oliver.
LOWELL BERGMAN
Oi, Doug. É Lowell. Estou fazendo uma matéria sobre
incêndios e queimaduras por dormir fumando. Recebi papéis
científicos da Phillip Morris. Anônimo. Você
ou alguém da FDA conhece quem possa verter isso para o inglês
para mim?
DOUG OLIVER
Sim.
Análise do 1º PN:
O jornalista recebe de alguém o objeto de valor que é
a informação representado pela caixa com documentos.
O sujeito do fazer é anônimo, pois é a pessoa
que enviou a caixa. Até o fim da narrativa da investigação,
este sujeito do fazer do primeiro programa narrativo não
é revelado. O sujeito de estado é o jornalista, que
tem sua situação alterada após o recebimento
da caixa. Passa de um estado de aparente conforto (pois desconhecia
aqueles documentos) ao estado de curiosidade sobre o conteúdo
daqueles documentos. Sua mulher Sharon e o agente do FDA Doug Oliver
são os adjuvantes deste PN, na medida em que..... (pede ajuda)
O sujeito de estado usa os dois adjuvantes como tentativa de entrar
em conjunção com o objeto de valor. O modelo do PN
ficaria assim então:
F (despertar curiosidade) [ S¹ (anônimo) ® S²
(jornalista) W Ov (informação) ]
4.2.1.2 PN 2
Estabelecimento de contato com a fonte.
LOWELL BERGMAN
Sr. Wigand, por favor?
DEBORAH WIGAND
(filha do cientista Jeffrey Wigand)
É para o papai, mãe.
LIANE WIGAND
(esposa do cientista Jeffrey Wigand)
Quem é?
LOWELL BERGMAN
Meu nome é Lowell Bergman...
LIANE WIGAND
Disse Berman?
LOWELL BERGMAN
Não, Bergman. B-E-R-G-M-AN. Sou produtor do 60 Minutos.
LIANE WIGAND
60 Minutos, da televisão?
LOWELL BERGMAN
Sim.
LIANE WIGAND
Ele não quer falar com você.
LOWELL BERGMAN
Como? Ele não sabe por que estou ligando.
LIANE WIGAND
Ele não quer saber.
(LIANE desliga
o telefone)
(LOWELL telefona novamente)
JEFFREY WIGAND
(mensagem da secretária eletrônica)
Residência dos Wigand. Se quiser deixar recado ou mandar um
fax, faça-o agora.
LOWELL BERGMAN
(recado na secretária eletrônica)
Sou Lowell Bergman, 60 Minutos. Faço uma matéria sobre
incêndio e cigarros. Tenho documentos científicos de
uma empresa de tabaco. Preciso de sua ajuda como consultor para
me explicar estes documentos. Meu telefone é 510-555-0199.
Estarei neste telefone em 10 minutos.
(Como não
recebe resposta, o jornalista manda um fax)
FAX enviado
por LOWELL BERGMAN
Por favor, ligue para 510-555-0199.
FAX enviado
por JEFFREY WIGAND
Não posso falar com você.
FAX enviado
por LOWELL BERGMAN
Não pode falar comigo? Não vai falar comigo? Ou não
quer falar comigo?
FAX enviado
por JEFFREY WIGAND
Não posso. Não vou. Não quero.
(LOWELL procura
no guia telefônico: KENTUCKY HOTEL SEELBACH - Louisville -
KY)
LOWELL BERGMAN
(recado na secretária eletrônica)
Se quiser me conhecer, estarei na recepção do Hotel
Seelback em Lousville, lendo o New York Times, amanhã às
5h.
Análise do 2º PN:
O sujeito de estado tenta entrar em conjunção com
o objeto de valor através de outro adjuvante, neste caso
é o cientista. A recusa deste em colaborar faz com que aumente
o desejo do jornalista de se inteirar do objeto de valor. A tripla
insistência (ligação, recados na secretária
eletrônica e fax enviados) caracteriza esta transformação
do sujeito de estado. Neste caso, quem está provocando tal
alteração é o cientista, que assume o papel
de sujeito do fazer neste programa narrativo. O objeto de valor
permanece sendo a informação. A mulher do cientista,
Liane Wigand, ao desligar o telefone e não transmitir o recado,
assume a função de oponente ao impedir o sujeito de
estado de entrar em conjunção com o objeto de valor.
O sujeito do fazer, além de Liane, é o próprio
cientista Jeffrey Wigand, que se nega a atender o sujeito de estado.
Isso está principalmente explícito no último
fax enviado pelo cientista:
"Não posso. Não vou. Não quero."
(falar com o jornalista).
Quanto ao enunciado modal, o sujeito do fazer tem o saber, mas não
possui o querer e o poder. O dever ainda não aparece neste
programa narrativo. O modelo deste PN poderia ser assim expresso
graficamente:
F (impedir acesso à fonte) [ S¹ (Jeffrey e Liane) ®
S² (jornalista) W Ov (informação) ]
4.2.1.3 PN 3
Primeiro encontro
do jornalista com o informante.
(Hotel Seelback - Kentucky - dentro do quarto)
LOWELL BERGMAN
Sempre morou em Louisville?
JEFFREY WIGAND
(cientista)
Sr. Bergman, o que quer que eu consulte?
(Alguém
bate na porta)
JEFFREY WIGAND
Quem é?
LOWELL BERGMAN
Serviço de quarto. Geralmente batem na porta primeiro. Entre.
Aqui por favor. Obrigado. Como toma seu café? Preto?
JEFFREY WIGAND
Preto. (...) Não tenho muito tempo.
LOWELL BERGMAN
Quer saber algo a meu respeito, Sr. Wigand?
JEFFREY WIGAND
Como o que? Seu signo? Sei o que devo saber.
LOWELL BERGMAN
Para saber que quando falo confidencialmente, permanece confidencial.
JEFFREY WIGAND
Como um jornalista radical da Ramparts foi parar na CBS?
LOWELL BERGMAN
Cubro as matérias difíceis. 60 Minutos é de
grande âmbito.
JEFFREY WIGAND
Deixe-me ver os documentos. (...) É um estudo de produtos
contra incêndio para a Phillip Morris. Índices de combustão,
propensão a ignição, coisas do gênero.
Posso lhe explicar em termos simples porque é de outra empresa.
Mas só vou até aí.
LOWELL BERGMAN
Até aí onde?
JEFFREY WIGAND
Isso é uma gota d'água no oceano. Podemos falar do
que está aqui, mas não posso falar sobre mais nada.
Assinei acordo de confidencialidade. Honro tais acordos. A CBS não
tem acordos de confidencialidade?
LOWELL BERGMAN
Talvez entre os jornalistas e a gerência. Mas não levo
isso a sério. Onde você trabalha?
JEFFREY WIGAND
Trabalhava...
LOWELL BERGMAN
Trabalhava.
JEFFREY WIGAND
Quanto receberei?
LOWELL BERGMAN
Isso deve ser conversado com a divisão comercial da CBS.
Mas para algo assim eu diria que entre 10 e 12 mil dólares.
JEFFREY WIGAND
Posso levar os documentos agora?
LOWELL BERGMAN
Se aceitar...
JEFFREY WIGAND
Eu trabalhei como chefe de Pesquisa e Desenvolvimento para a Brown
& Williamson, empresa de tabaco. Era vice-presidente.
(JEFRREY WIGAND
sai do quarto do hotel)
Análise
do 3º PN:
Percebe-se que o cientista está numa crise de consciência,
pois sabe que deve compartilhar a informação, porém
não é aconselhável, ou seja, ele não
pode. Quando ele diz
"não posso falar sobre mais nada"
já presume-se que tenha falado sobre alguma coisa, mas o
que a informação realmente relevante para a investigação
não pode ser revelada. Em outra ocasião, quando perguntado
sobre suas dúvidas quanto ao jornalista, o cientista responde:
"Sei o que devo saber".
Os papéis invertem-se neste programa narrativo. O cientista
aceitou o convite do jornalista para um encontro. E neste encontro
o sujeito do fazer é o jornalista, pois provoca uma transformação
no sujeito de estado. O cientista está em conjunção
com o objeto de valor e quer compartilhar o que sabe com o sujeito
do fazer, porém não pode por causa do acordo de confidencialidade
assinado com seus ex-empregadores.
F (o encontro) [ S¹ (jornalista) ® S² (cientista)
W Ov (informação) ]
4.2.1.4 PN 4
Primeiro atrito
entre jornalista e fonte.
(LOWELL BERGMAN
está jantando com MIKE WALLACE num restaurante)
(JEFFREY WIGAND liga para LOWELL BERGMAN)
LOWELL BERGMAN
Alô?
JEFFREY WIGAND
Você me fodeu.
LOWELL BERGMAN
Quem é?
JEFFREY WIGAND
Protege suas fontes? Você me fodeu. Você me entregou.
LOWELL BERGMAN
Do que está falando? Onde está?
JEFFREY WIGAND
Foda-se você também.
Análise
do 4º PN:
A estrutura e o conteúdo deste 4º PN constitui um pré-programa
narrativo, isto é, sua classificação como programa
narrativo completo foi feita com vistas aos próximos PNs
apresentados neste trabalho. Pode-se, entretanto, conceber uma breve
análise das mudanças de estado no sujeito e admitir
que a função expressa no PN é a de tornar o
sujeito de estado confuso. Neste pré-programa, o sujeito
do fazer é o cientista Jeffrey Wigand, que deixa o jornalista
desnorteado após as acusações. Graficamente,
o PN poderia ser assim representado:
F (emitir acusações) [ S¹ (cientista) ® S²
(jornalista) W Ov (informação) ]
4.2.1.5 PN 5
Confidências do informante para o jornalista.
(JEFFREY WIGAND
saindo de carro para levar as crianças na escola)
LIANE WIGAND
Jeffrey, esqueceu das lancheiras.
LOWELL BERGMAN
Senhora Wigand...
JEFFREY WIGAND
Entre rápido.
LOWELL BERGMAN
Como vai? Sou Lowell Bergman. Falamos pelo telefone.
LOWELL BERGMAN
Venha aqui, quero falar com você.
JEFFREY WIGAND
Bom. Quero falar com você.
JEFFREY WIGAND
Estamos na minha casa.
LOWELL BERGMAN
Eu não te entreguei.
JEFFREY WIGAND
Diante de minha esposa e filhas?
LOWELL BERGMAN
Não entreguei você a ninguém.
JEFFREY WIGAND
Temos negócios?
LOWELL BERGMAN
Vim aqui esclarecer uma coisa, aqui e agora.
JEFFREY WIGAND
Não mencionou o meu nome? Não falou com ninguém
sobre mim? Por que Brown & Williamson...
LOWELL BERGMAN
Como vou saber da Brown & Williamson?
JEFFREY WIGAND
Foi logo depois que conversamos. Não gosto de coincidências.
LOWELL BERGMAN
Não gosto de acusações paranóicas. Sou
jornalista. Use a cabeça. Que jornalista eu sou? Entrego
as pessoas que me informam antes de receber as informações?
JEFFREY WIGAND
Veio até aqui me dizer isso?
LOWELL BERGMAN
Não, não vim. Tabaco é uma grande matéria
e você tem algo importante a dizer. Mas sim, vim até
aqui para lhe dizer que com ou sem a matéria, dane-se o que
você tem a dizer. Não delato as pessoas.
JEFFREY WIGAND
Venha comigo enquanto deixo as meninas na escola.
(Dentro do carro
de JEFFREY WIGAND)
JEFFREY WIGAND
Minha filha tem asma aguda. Débora, a mais velha. Estou desempregado
e preciso manter meu convênio médico. Deixei recado
para eles hoje. O adendo ao acordo de confidencialidade... vou assinar.
LOWELL BERGMAN
Eles têm medo de você.
JEFFREY WIGAND
Deveriam ter.
LOWELL BERGMAN
Fale comigo de coisas fora do escopo do seu acordo.
JEFFREY WIGAND
Como o quê?
LOWELL BERGMAN
Onde você trabalhou antes da Brown & Williamson?
JEFFREY WIGAND
Johnson & Johnson; Union Carbide, no Japão. Fui gerente
geral e diretor de produtos. falo japonês. Fui diretor de
desenvolvimento empresarial na Pfizer. Todos na área de saúde.
O que mais fora do escopo?
LOWELL BERGMAN
Não sei, acha que os Knicks chegam às semifinais?
(Passa-se um
tempo, ainda dentro do carro)
LOWELL BERGMAN
Dê-me um exemplo.
JEFFREY WIGAND
James Burck. Diretor executivo da Johnson & Johnson. Quando
soube que um lunático havia envenenado o Tylenol, ele não
discutiu com o FDA. Nem esperou pelo FDA. Retirou todo o Tylenol
de todas as prateleiras, na hora, no país todo. E depois
inventou uma tampa de segurança. Como administrador executivo,
é preciso ser empresário, mas também ser homem
da ciência. Não permitirá que sua empresa coloque
à venda um produto que faça mal às pessoas.
Os Sete Anões são diferentes.
LOWELL BERGMAN
Sete Anões?
JEFFREY WIGAND
Sete diretores da Indústria do Tabaco. Foram perante o Congresso.
Saiu na televisão. Testemunharam que desconheciam a dependência,
doenças...
LOWELL BERGMAN
Então você vai trabalhar no ramo do tabaco, vindo de
empresas onde a pesquisa e o pensamento criativo são valores
essenciais. Vai trabalhar com tabaco, que é uma cultura de
vendas: comercializar e vender em grandes quantidades, ir a torneios
de golfe, que se dane o resto. Que está fazendo? Por que
trabalha nesse ramo?
JEFFREY WIGAND
Não posso falar disso. O trabalho que eu fazia pode ter tido
um efeito positivo. Pode ter sido benéfico. Eu ganhava muito
bem. Eu aceitava o dinheiro. Minha esposa estava feliz. As meninas
tinha bom convênio, boa escola, uma ótima casa. O que
há de errado com isso?
LOWELL BERGMAN
Nada. Está ganhando dinheiro. Está sustentando a família.
Que haveria de errado?
JEFFREY WIGAND
Sempre me considerei um homem da ciência. Isto que está
errado.
LOWELL BERGMAN
Então você está em conflito, Jeff. Porque o
negócio é o seguinte: se você tem dados vitais
que o povo americano deve saber para seu próprio bem-estar
e você se sente compelido a revelá-los, infringir seu
contrato, é uma coisa. Por outro lado, se quer honrar o contrato,
então é simples: faça isso. Não diga
nada, não faça nada. Só uma pessoa pode resolver
isso para você, e é você mesmo, sozinho.
JEFFREY WIGAND
Vou buscar as meninas. Estudam só meio período.
Análise
do 5º PN:
Neste PN o segredo começa a ser desvelado, ainda que por
intermédio das técnicas de persuasão na entrevista
informal do jornalista com o cientista. Considerando que o processo
de manipulação só é possível
quando o destinador e o destinatário partilham dos mesmos
valores, o jornalista assume a posição de destinador-manipulador,
submetendo o destinatário por meio do poder ou do saber.
O jornalista incute no destinatário o dever, que pode ser
observado na seguinte fala:
"você tem dados vitais que o povo americano deve saber
para seu próprio bem-estar"
Em seguida o jornalista completa seu pensamento dizendo que só
o cientista pode resolver o impasse sozinho. A manipulação
é sutil e ocorre através da sedução.
O cientista deve considerar ser capaz de cumprir tal missão
e beneficiar todo o povo norte-americano. É uma grande responsabilidade
e ele precisa querer-fazer, pois o saber e o dever ele já
possui - sendo que este último (o dever) acabou de ser adquirido
depois da conversa com Bergman.
4.2.1.6 PN 6
Brainstorm coletiva.
(cenas passam
no videocassete)
"- Vocês
todos tocaram ligeiramente no ponto. Digam sim ou não. Acreditam
que a nicotina não vicia?
- Senador, o cigarros e a nicotina não se encaixam nas definições
clássicas de vício. Não há intoxicação.
- Aceitaremos como um não. O tempo é curto. Acho que
todos vocês acreditam que a nicotina não vicia. Precisamos
que isto conste dos autos.
THOMAS SANDEFUR - presidente da B&W
- Acredito que a nicotina não vicia."
LOWELL BERGMAN
Ele falou disso, dos Sete Anões.
MIKE WALLACE
(apresentador do "60 Minutos")
Que sete anões?
LOWELL BERGMAN
Os sete diretores da indústria de tabaco. Disse que deviam
ter medo dele. Deve ser medo do que ele podia revelar. Agora digam-me:
o que ele poderia dizer que ameace este pessoal?
MIKE WALLACE
Não é que o cigarro faz mal. Não é novidade.
LOWELL BERGMAN
O que é isso?
MARK STERN (jornalista
da CBS)
A defesa padrão da indústria. A ladainha do "não
sabemos". Vício? Não acreditamos. Doenças?
Não sabemos. Pegamos umas folhas, enrolamos, vocês
que fumam. Depois disso, problema seu, não sabemos. Isto
não me diz nada. Você nunca saberá o que ele
esconde.
LOWELL BERGMAN
Por que não?
JOHN HARRIS
(jornalista da CBS)
Devido ao acordo. Ele nunca falará com você.
LOWELL BERGMAN
Isso não. Ele é cientista conceituado, na terceira
maior empresa de tabaco na América. Ele é administrador
da empresa. Nunca temos informantes de empresas da Fortune 500.
Ele tem informação privilegiada, tem algo a dizer.
Ele quer falar. Quero no 60 Minutos.
MIKE WALLACE
Não interessa o que ele quer.
JOHN HARRIS
Como assim, Mike?
MIKE WALLACE
Tem um acordo de confidencialidade. Dá um tempo. É
uma questão de saúde pública, como a fuselagem
defeituosa em um avião de passageiros ou o despejo de cianureto
no rio Ocidental. Ele deve falar dessas questões, nós
levamos ao ar. Não tem o direito de escondê-lo com
um acordo de confidencialidade. Leite.
JOHN HARRIS
Não precisam deste direito. Eles têm dinheiro. É
o cheque sem limite. Assim que a indústria de tabaco ganha
sempre, e em tudo. Gastam a dar com pau. U$ 600 milhões anuais
em honorários legais. Chadbourne Parke, Ken Starr, Kirkland
e Ellis.... Vejam: a GM e a Ford levam a pior com a explosão
de 11 ou 12 caminhonetes. Estes palhaços jamais, nenhuma
vez, nem com centenas de milhares de pessoas morrendo por ano de
doenças relacionadas ao produto deles, nunca perderam um
processo de lesão corporal. Vão aplicar a lei da mordaça,
processar por quebra de contrato, foder com ele, você, nós,
o cachorro dele, veterinário... Mantém todos em litígio
por 10 ou 15 anos, eles entram com tudo, ele sabe disso. Por isso
ele não falará com você.
LOWELL BERGMAN
Vamos analisar vendo do outro lado.
MIKE WALLACE
Como assim?
LOWELL BERGMAN
Temos uma pessoa que quer falar, mas está oprimida. E se
fosse obrigada a falar?
MIKE WALLACE
Ah, tortura? Ótimo para a audiência.
MARK STERN
Como assim, obrigado?
LOWELL BERGMAN
Obrigado pelo departamento de Justiça. Tribunais estaduais,
ser testemunha. Isso atravessaria qualquer acordo de confidencialidade,
não é?
DEBBIE DELUCA
Como se faz isso?
LOWELL BERGMAN
Como assim?
DEBBIE DELUCA
Como atravessaria o contrato de confidencialidade?
LOWELL BERGMAN
Porque ele terá de revelar perante a lei. Será revelado
oficialmente. Pronto: não é mais segredo. Como podem
impedi-lo de falar ou revidar? O mundo saberá.
MARK STERN
Se conseguir tornar registro público, talvez. Para esconderem
o que ele tem a dizer é difícil, não?
JOHN HARRIS
Mas de quem forma? Ele tem advogados fera?
LOWELL BERGMAN
Acho que não tem nenhum advogado.
MARK STERN
Precisamos de advogados que não temam arriscar anos em litígio
e milhões de dólares do próprio bolso em custos
legais...
LOWELL BERGMAN
O que você acha, Mike?
MIKE WALLACE
Mesmo que ele tivesse uma equipe de defesa, ele aceitaria?
Análise do 6º PN:
A primeira parte deste PN também nos remete ao dilema moral
vivido pelo cientista Jeffrey Wigand, apesar dele não estar
presente na ação. Quando o jornalista Lowell Bergman
diz, por exemplo,
"Disse que deviam ter medo dele. Deve ser medo do que ele podia
revelar. Agora digam-me: o que ele poderia dizer que ameace este
pessoal?",
ele faz uma constatação dos medos do próprio
cientista. Também notamos aqui que há uma modalização
do ser, que determina a relação do sujeito com o objeto,
dizendo-a verdadeira ou falsa. Aquilo que não parece e não
é é falso, mas aquilo que parece e é é
verdadeiro. Neste caso do PN, o jornalista afirma que "deve
ser medo" - esta modalidade confirma ser verdadeira ao longo
do percurso narrativo, mas a princípio seria classificado
como mentira (aquilo que parece, mas não é).
Outra passagem significativa neste PN é o diálogo
entre Mike e Bergman acerca do querer do cientista. Bergman diz,
acerca de Jeffrey Wigand, "Ele quer falar." Mike responde
que "não interessa o que ele quer." E acrescenta:
"É uma questão de saúde pública.
Ele deve falar dessas questões, nós levamos ao ar.
Não tem o direito de escondê-lo com um acordo de confidencialidade."
Esta brainstorm coletiva dos jornalistas e produtores do programa
60 Minutos tem vários adjuvantes e dois sujeitos distintos:
Mike Wallace, como sujeito do fazer, e Lowell Bergman pode ser considerado
o sujeito de estado, pois teve sua situação alterada
durante o programa narrativo.
4.2.1.7 PN 7
Manipulação
de interesses.
(Os dois estão num restaurante japonês)
LOWELL BERGMAN
O que pediu?
JEFFREY WIGAND
Tempura. Na internet diz que fez pós-graduação
em Wiscosin e foi para UCLA com professor Herbert Marcus...
LOWELL BERGMAN
Marcuse. É, foi meu mentor. Ele exerceu grande influência
na nova esquerda no final de 60. E em mim.
JEFFREY WIGAND
Depois do seu pai?
LOWELL BERGMAN
Meu pai? O que isso tem a ver com meu pai?
JEFFREY WIGAND
Por isso tornou-se jornalista?
LOWELL BERGMAN
Você pergunta tudo? Você cobra por hora?
JEFFREY WIGAND
Meu pai era engenheiro técnico, o homem mais engenhoso que
conheci.
LOWELL BERGMAN
Eu tinha cinco anos quando o meu sumiu. E não era dos mais
engenhosos.Vamos falar da Brown & Williamson. Se decidir falar
no "60 Minutos", preciso saber de tudo sobre sua demissão.
JEFFREY WIGAND
Por quê?
LOWELL BERGMAN
Vão vasculhar seu passado. Vão jogar lama em você.
Preciso saber de tudo, entende?
JEFFREY WIGAND
Eu bebo. Em algumas ocasiões, mais do que devo. Já
fui acusado de furto, mas foi engano. Empurrei Liane uma vez, estávamos
estressados de tanta pressão. Ela foi pra casa da mãe.
Fui demitido porque quando fico nervoso, é difícil
eu me censurar e não gosto de ser coagido.
LOWELL BERGMAN
Não estou coagindo você, estou fazendo perguntas.
JEFFREY WIGAND
Para você sou apenas uma mercadoria, não? Qualquer
coisa que valha a pena pôr entre os comerciais.
LOWELL BERGMAN
Para uma rede, talvez sejamos todos mercadorias. Para mim, você
não é. O que você é, é importante.
Se falar, trinta milhões de pessoas ouvirão o que
têm a dizer. Nunca mais nada será como antes. Acredita
nisso?
JEFFREY WIGAND
Não.
LOWELL BERGMAN
Deveria. Porque quando você terminar, haverá um juízo
no tribunal da opinião pública. E este é o
poder que você tem.
JEFFREY WIGAND
Você acredita nisso?
LOWELL BERGMAN
Sim, acredito.
JEFFREY WIGAND
Informa as pessoas e aí acontece?
LOWELL BERGMAN
É.
JEFFREY WIGAND
Talvez é o que diz a si mesmo, para justificar o bom emprego,
o status. Talvez para os telespectadores seja apenas voyeurismo
de domingo. Talvez não mude nada e pessoas como eu e minha
família ficam mesmo abandonadas, usadas, falidas, sozinhas.
LOWELL BERGMAN
Está falando comigo ou alguém entrou aqui? Eu nunca...
JEFFREY WIGAND
Acho que você não entendeu...
LOWELL BERGMAN
Não fuja de uma resolução que é sua
questionando a minha reputação ou a de "60 Minutos"
com esse ceticismo barato.
JEFFREY WIGAND
Coloco o bem-estar da minha família em jogo. Você coloca
palavras.
LOWELL BERGMAN
Palavras... Enquanto participava de torneios de golfe, eu estava
lá fora dando a minha palavra e provando com atitudes. Vai
fazer isto ou não?
JEFFREY WIGAND
Disse que ligaria para as meninas antes de dormirem.
Análise
do 7º PN:
As ações do sujeito e do destinador diferenciam-se
em determinados programas narrativos: ou o sujeito transforma estados,
faz-ser e simula a ação do homem sobre as coisas do
mundo, ou o destinador modifica o sujeito, pela alteração
e suas determinações semânticas e modais, e
faz-fazer, representando assim a ação do homem sobre
o homem.
Este último é o caso deste programa narrativo, onde
ocorre a manipulação por sedução, como
se vê claramente na frase dita pelo destinador-manipulador
jornalista:
"Para uma rede, talvez sejamos todos mercadorias. Para mim,
você não é. O que você é, é
importante. Se falar, trinta milhões de pessoas ouvirão
o que têm a dizer."
E em seguida acrescenta:
Pois "deveria (acreditar no que ele está dizendo). Porque
quando você terminar, haverá um juízo no tribunal
da opinião pública. E este é o poder que você
tem."
O destinador-manipulador (jornalista) atribui ao destinatário-manipulado
(cientista) a competência modal do querer-fazer, do dever-fazer,
do saber-fazer e principalmente do poder-fazer. Na manipulação,
o destinador está propondo um contrato ao mesmo tempo em
que exerce a persuasão para convencer o destinatário
a aceitá-lo. Neste 7º PN, o que acontece é que
o fazer-persuasivo do destinador-manipulador resulta num fazer-crer
do destinatário, que aceita o contrato, como vemos no decorrer
dos programas narrativos.
4.2.1.8 PN 8
A decisão.
(JEFFREY WIGAND liga para LOWELL BERGMAN)
LOWELL BERGMAN
Sim?
JEFFREY WIGAND
Estão nos aterrorizando. Ameaçaram minha famílias,
minhas filhas de morte.
LOWELL BERGMAN
Do que está falando?
JEFFREY WIGAND
Colocaram uma bala na caixa do correio.
LOWELL BERGMAN
Chame o FBI. Agora mesmo.
JEFFREY WIGAND
Fazem isso impunemente. À noite, eles voltam para casa. Para
eles, o que custa fazer isso? Nada. Minhas filhas estão chorando...
Eles que se fodam. Vou falar. Chega de ficar calada.
LOWELL BERGMAN
Já entendi, mas primeiro precisa arrumar defesa jurídica.
Você deve testemunhar no tribunal para registro público.
JEFFREY WIGAND
Então não coloque no ar até que tenha isso,
mas quero ir para Nova York, quero falar publicamente, agora.
LOWELL BERGMAN
Ótimo, mas Jeff...
JEFFREY WIGAND
Vou ligar para eles, Lowell.
Análise do 8º PN:
O destinatário-manipulado (cientista) deixou-se persuadir,
através da sedução, acreditando nos valores
e no poder do destinador-manipulador (jornalista) e aceita o contrato
proposto: o de revelar o que sabe. Neste programa narrativo, acontece
a obtenção do poder (fazer e querer) pelo sujeito
de estado representado pelo cientista.
Outro fator que influenciou na decisão do sujeito de estado
foi a manipulação por intimidação (ainda
que involuntária) para que ele não abrisse mão
do objeto de valor. Quem quer que estivesse ameaçando o destinatário-manipulado
usou da intimidação (representada pela bala de revólver
na caixa do correio) almejava incutir medo no sujeito de estado.
Este, porém recusou o contrato e aceitou a manipulação
por sedução, recebendo assim a competência modal
do poder e querer fazer.
4.2.1.9 PN 9
Conseqüência
da decisão.
(Os quatro estão jantando na sala de jantar do The Four Seasons
Hotel, em Nova York)
LOWELL BERGMAN
Está tudo bem?
MIKE WALLACE
Os quartos são confortáveis?
LIANE WIGAND
Gosto muito do que faz. Quando fala com alguém sinto como
se estivesse aí.
MIKE WALLACE
Muito obrigado.
LOWELL BERGMAN
Podemos conversar sobre a gravação de amanhã?
Para podermos tirar logo do caminho?
MIKE WALLACE
As perguntas serão sob seu trabalho lá, porque foi
demitido...
LIANE WIGAND
Gravação? O que está gravando?
JEFFREY WIGAND
Darei uma entrevista...
LIANE WIGAND
Uma entrevista? Sabe o que eles farão conosco? Pensei que...
LOWELL BERGMAN
Sinto muito. Liane, é preliminar.
(LIANE WIGAND
sai da sala)
LOWELL BERGMAN
Não contou da gravação para ela? Que ela pensou
que veio fazer em Nova York?
JEFFREY WIGAND
Falar... Pensar nisso. Planejei explicar gentilmente, mas realmente
não sei como fazer isso.
(JEFFREY WIGAND
sai da sala)
MIKE WALLACE
Puxa vida! Que gente é essa?
LOWELL BERGMAN
Pessoas comuns sob enorme pressão, Mike. O que você
esperava? Boa vontade e coerência?
Análise do 9º PN:
Como conseqüência de ter decidido testemunhar, o cientista
Jeffrey Wigand acaba gerando um atrito com sua esposa. Quando ela
pergunta "você sabe o que eles farão conosco"
e não recebe resposta, fica implícito que o cientista
sabe das conseqüências do seu fazer e está certo
do seu poder e dever. O cientista, entretanto, confessou não
saber como explicar para a mulher as razões que o levaram
a tomar a decisão de revelar publicamente o segredo.
A mulher, como sujeito do fazer, tenta manipular o cientista, ameaçando
abandoná-lo caso ele persista com a idéia de gravar
a entrevista, mas esta manipulação não chega
a causar efeito no destinatário-manipulado. O que está
em jogo é a união do casal.
O PN poderia ser expresso graficamente desta forma:
F (revogar a decisão) [ S¹ (esposa do cientista) ®
S² (cientista) W Ov (casamento) ]
4.2.1.10 PN10
Consumação da decisão: a entrevista.
(Gravação
dentro dos estúdios da CBS)
5, 4, 3, 2...
MIKE WALLACE
(apresentador do "60 Minutos")
Ouviu o senhor Sandefur dizer, no Congresso, que ele acreditava
que a nicotina não viciava?
JEFFREY WIGAND
Acho que o senhor Sandefur deu falso testemunho porque assisti a
tudo com muita atenção.
MIKE WALLACE
Todos nós assistimos. Havia uma fila de pessoas, vários
diretores-executivos, todos jurando.
JEFFREY WIGAND
Um dos motivos que me traz aqui é que achei que a representação
deles relatou erroneamente, ao menos na representação
da B&W, relatou erroneamente o que é de conhecimento
na empresa. Nosso ramo de negócios é a entrega de
nicotina.
MIKE WALLACE
É para isso que servem os cigarros?
JEFFREY WIGAND
Um dispositivo para entrega de nicotina.
MIKE WALLACE
Coloque na boca, acenda e receba sua dose.
JEFFREY WIGAND
Receba sua dose.
MIKE WALLACE
Está dizendo que a Brown & Williamson manipula e ajusta
doses de nicotina, não adicionando à nicotina artificialmente,
mas aumentando o efeito da nicotina com o uso de elementos químicos
como o amoníaco?
JEFFREY WIGAND
O processo é conhecido como reforço do impacto. Mesmo
sem aumentar a nicotina, obviamente a manipulavam. Esta tecnologia
é bastante usada, ciência do amoníaco. Permite
que a nicotina seja absorvida mais rapidamente no pulmão,
afetando assim o cérebro e o sistema nervoso central. A gota
d'água que desencadeou tudo em mim e que me deixou em maus
lençóis com Sandefur foi um composto chamado cumaru.
Quando entrei na B&W tinham tentado trocar o cumaru por um sabor
semelhante, que daria o mesmo gosto, mas não deu certo. Eu
quis sair imediatamente. Me disser |